1917

1917 é o mais recente filme de Sam Mendes e considerado um dos mais fortes candidatos ao triunfo nos Oscars dentro de menos de um mês. Baseado em histórias contadas pelo avô de Mendes, que foi um mensageiro do exército britânico na Primeira Grande Guerra, 1917 prometia muito, em especial com o genial Roger Deakins como responsável pela fotografia do filme. E os prémios que foi acumulando, bem como os elogios generalizados da crítica faziam abrir o apetite. Foi com alguma antecipação que fui ao cinema ver 1917, portanto. Seria correspondida ou sairia desiludido?

No decurso da Primeira Guerra Mundial, em Abril de 1917, as linhas alemãs parecem recuar. Tomando este movimento como um sinal de fraqueza dos germânicos, o exército britânico resolve avançar para atacar as posições dos alemães em aparente retirada, destacando 1600 homens do regimento Devonshire para a missão. Mas pouco tempo depois, com informação dos aviões de reconhecimento, a liderança das forças britânicas apercebem-se que o recuo é estratégico, atraindo as suas tropas para uma armadilha. Com as comunicações cortadas, cabe a dois soldados, Schofield e Blake, levar manualmente à linha da frente a mensagem para cessar o ataque, colocando as suas vidas em risco para evitar a perda da vida de centenas de compatriotas.

Depois de Dunkirk de Christopher Nolan, com o qual partilha alguns pontos em comum (como por exemplo o mesmo editor, Lee Smith), 1917 é muito provavelmente um dos melhores filmes de guerra da última década. Boa parte do seu direito à fama advém do modo como foi filmado, de modo a parecer ter sido feito em apenas um take (apesar de ter sido filmado durante mais de dois meses na realidade), e aí todo o brilhantismo de Deakins é visível, adivinhando-se o seu segundo Oscar (e em anos quase consecutivos, após ter falhado a vitória inúmeras vezes no passado). Mas 1917 vai para além disso, sendo em igual medida épico e emocional, e por momentos quase surreal, em especial no último terço. Os horrores da guerra são bem retratados e sempre presentes, sendo empregue uma atmosfera geralmente muito realista, em especial na primeira metade da acção. Acção essa que quase não tem pausas, com a câmara sempre colada aos nossos protagonistas, o estóico Schofield e o idealista Blake, ambos igualmente determinados, mas por motivos distintos. De entre estes, um destaque especial para o Schofield de George MacKay, que é a alma do filme. Um pouco menos marcante o Blake de Dean-Charles Champman, o Tommen de Game of Thrones, mas ainda assim com um par de cenas importantes, uma delas é das mais emotivas do filme.

Em relação ao resto do elenco, contam-se presenças fortes, mas fugazes, de nomes como Benedict Cumberbatch, Colin Firth e Mark Strong. Mas o filme depende bastante dos dois protagonistas, que são o nosso ponto de vista e janela para o passado, há cerca de um século atrás.

Para além dos terrores mais palpáveis da Primeira Grande Guerra, o absurdismo brutal desta também não é esquecido, com a clara referência aos movimentos minúsculos dos exércitos rivais, cujas forças se massacravam mutuamente por meia dúzia de metros. E normalmente as vítimas eram soldados, pouco mais do que adolescentes, peões nas mãos de generais longe da perigosa (e estática) frente de batalha. A mensagem não é de todo tão forte como em Paths of Glory, de Kubrick, mas está presente na mesma.

A banda sonora de Thomas Newman conta-se certamente entre as melhores que alguma vez fez e faixas como The Night Window e Sixteen Hundred Men irão marcar o ouvinte (e espectador), até pelas magníficas cenas a que estão associadas, a primeira uma cena de grande beleza pictórica e a segunda a apoteose épica do filme.

Por fim, tanto a já referida edição de Lee Smith (que é um dos responsáveis, junto com Deakins, por não serem perceptíveis os cortes durante a filmagem), como o som (edição e mistura) são impecáveis, reforçando a ideia de que 1917 é o mais forte filme do ano a nível das categorias técnicas.

O único ponto que 1917 terá de menos forte é a simplicidade aparente do seu argumento, mas os toques de emoção, que nunca roça o exagero e o melodrama, mas antes se pauta pelo bom gosto, compensam este facto.

Sem sombra de dúvida, 1917 é um dos melhores filmes do ano que passou e poderá ser o maior candidato à vitória nos Oscars, tendo em Joker o seu potencial maior rival. É quase certo no entanto que Sam Mendes terá o merecido prémio de melhor realizador, mas veremos o que Fevereiro reserva.

1917 deixa ainda vários momentos inesquecíveis no espectador, em especial pela sua força pictórica e pelo heroísmo altruísta dos seus protagonistas, e pode já juntar-se ao panteão dos melhores filmes de guerra de sempre.

9/10

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